A criatividade é uma arte que foge ao ouvir seu nome.
Sim, comecei com essa.
Não sei você, mas parece que quanto mais eu fixo na ideia de fazer algo de forma criativa, menos criativa eu me sinto e, consequentemente, menos coisas eu consigo produzir (criativas ou não).
Por um tempo acreditei que a criatividade mesmo só nos encontrava de surpresa, e que era preciso agarrá-la antes que escapasse mais uma vez, como se fosse um milagre. Essa ideia, apesar de não me parecer totalmente absurda, desconsidera todo o trabalho bastante prático que é cultivar um espaço fértil e seguro para que as “surpresas criativas” nos encontrem com mais frequência e possam permanecer por mais tempo, quase como algo natural, uma forma de vida, uma parte de nós.
Separei algumas dicas para começar a olhar para a criatividade de uma nova forma e, com esperança, abrir mais possibilidades para a escrita criativa:
1. A criatividade precisa de limites
Importante em tudo e sempre e na criatividade também. Pensar em escrever algo criativo é muito amplo. Tipo entrar em loja de departamento sem objetivo: você passa horas lá dentro entre infinitas possibilidades e sai de mãos vazias, ou ainda pior, carregando sacolas de coisas que você não queria.
Se a criatividade é infinita e o espaço é infinito, fica esmagador, paralisante. Diminuir o espaço, ainda bem, não diminui a infinitude da criatividade, por menor que seja o contorno. Então contorne.
Limite alguma coisa: seja o tema escolhido, o formato, o tempo ou o local. Crie um desafio.
Escreva dentro dele. E se tiver alguém que possa dar esses contornos para você, fica ainda melhor.
Por mais que a produção final saia completamente da primeira proposta, o principal objetivo é colocar a palavra em movimento para que ela possa tomar seus próprios caminhos.
2. Para escrever algo realmente bom, escreva muito
A constância na prática e o volume produzido fazem toda a diferença. Algumas frases chegam prontas e fortes de cara, é certo. Mas seria irreal esperar que fosse sempre assim.
Quanto mais a gente pratica, quanto mais a gente produz, “bom” ou não (se é que existe “bom”), mais conexões a gente faz, mais palavras encontramos e mais palavras vêm nos encontrar mais tarde.

3. Criativo ≠ Genial
Quando foi que a criatividade ganhou tanto peso? Escrever de forma criativa não precisa significar mudar o mundo, ganhar um prêmio ou resolver problemas milenares.
Tente descobrir o que acontece quando você tira um pouco o peso da genialidade, do julgamento, da dualidade bom ou ruim.
Isso te ajuda a ganhar pelo volume e, entre dezenas de ideias criativas com pouco ou nenhum sentido, talvez encontrar algo que funcione ou dê a faísca necessária para criar o que se estava buscando inicialmente.
4. Conte as suas histórias do seu jeito
Existe uma maneira de perceber as coisas que é só sua e ninguém mais consegue experienciar ou contar da mesma forma.
Esses dias uma amiga estava me falando que achava o texto dela muito clichê, porque se apropriava de uma ideia bastante usada, a da colcha de retalhos. Mas o texto tinha tanto dela, tanta sensibilidade, que não prestei atenção na presença da colcha de retalhos de primeira.
Não importa muito se o texto parte de uma ideia já conhecida. A criatividade não está na criação de algo jamais visto, seria impossível. O que importa é quais partes de você iluminam o entorno daquele lugar de formas que, aí sim, só poderiam sair de você.
5. Quando estiver travado, converse.
Chame um amigo, abra um bate-papo só com você no WhatsApp, converse com os céus, com a Alexa, com o que for, mas converse. Fale em voz alta ou em voz digitada sobre o que está tentando fazer. Fale sobre as frustrações, sobre onde quer chegar e como se sente.
Muitas vezes o desbloqueio vem do próprio falar, não só sobre o texto mas sobre tudo que o envolve, o embala, o constitui – incluindo você.
Se tiver um grupo onde possa ter esse tipo de conversa e ouvir o retorno de mais pessoas que passam pelos mesmos caminhos, melhor ainda. Encontre esses espaços. Deixe-se fazer parte deles.
E deixe que suas palavras voem
livres mais uma vez.
Com amor,
Re e equipe do
Escrita Matinal