Em “Cem anos de solidão”, obra vencedora do Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1982, o autor colombiano Gabriel García Márquez introduz as borboletas amarelas que, anos mais tarde, voariam pelos céus da América Latina em despedida ao autor.
As borboletas aparecem junto ao personagem Mauricio Babilônia, que vive um conturbado romance com Renata Remédios Buendía (Meme).
"Quando Mauricio Babilônia começou a persegui-la como um fantasma que só ela identificava na multidão, compreendeu que as borboletas amarelas tinham alguma coisa a ver com ele. (...) Ela não precisava vê-lo para descobri-lo porque as borboletas indicavam onde ele estava."
Gabriel García Márquez em "Cem anos de solidão"
O romance dos dois, marcado pela reprovação de Fernanda, mãe de Meme, e pelas borboletas que prenunciam a presença do amante, resulta em um filho bastardo, Aureliano Babilônia, e na invalidez de Mauricio, que leva um tiro como ladrão de galinhas.
As borboletas amarelas despertaram a curiosidade dos leitores por sua misteriosa simbologia. Enquanto alguns consideram fruto da narrativa mágica do autor, outros fazem conexões mais realistas.
Conversamos com Cynthia Hosken, entomóloga e participante do Escrita Matinal, para saber mais sobre o assunto.

Em 1979, em entrevista para a revista italiana Epoca, Gabriel García revelou que a história teve início em um episódio real de sua infância.
"A história veio de um episódio da minha infância. Um dia vi a minha avó tentando exterminar borboletas com um aparelho cheio de inseticida. Nessa época, um eletricista ia com frequência à minha casa. (...) Minha avó dizia que cada vez que ele saía, todo o ambiente se enchia de borboletas."
Gabriel García Márquez em entrevista para a revista Epoca
No episódio real, no entanto, as borboletas eram brancas. Ganharam a cor amarela entre as páginas do livro e, desde então, se tornaram símbolo da obra de Gabriel García Márquez, sendo referenciadas em produções modernas e em homenagens ao autor.

Foto: Encanto, Walt Disney Studios
“Encanto”, produção do Walt Disney Studios de 2021, acompanha várias gerações da família colombiana Madrigal. O filme, que se passa na terra natal de Gabriel García, utiliza-se também de narrativas mágico-realistas e de elementos como as borboletas amarelas, que ganham destaque na canção “Dos oruguitas”, de Sebastián Yatra. Em apresentação na cerimônia do Oscar, em 2022, o cantor vestiu um terno preto iluminado pelas mariposas amarillas.

Foto: ALAMY. Homenagem em Bogotá a Gabriel García Márquez.
Borboletas amarelas de papel voaram aos ares para homenagear a vida e a passagem do autor em 2014. No México, em frente ao Palacio de Bellas Artes, o presidente da época declarou: “Gabo desvendou a essência da nossa América Latina e a apresentou ao mundo.”
Se um dia as borboletas amarelas indicavam a presença de Mauricio Babilônia, hoje prenunciam o legado de um autor que continua sendo celebrado por várias gerações por sua grandeza e genialidade.
“Voarão eternamente borboletas amarelas em todas as chances sobre a terra.”

Renata de Camargo
Equipe Escrita Matinal