Quando eu era criança, sonhava em ser cantora. Nos dias em que passeava no shopping com a minha família, ficava cantando em voz alta, esperando que algum olheiro achasse incrível e me convidasse para a grande oportunidade da minha vida.
Fui crescendo, participando de corais, e ouvindo coisas atrozes. Uma vez, um professor elogiou minha afinação para os meus pais – ao que meu pai respondeu: ele deve ser surdo.
Passam os anos e estou com 30. Não virei uma cantora famosa, tampouco insisti na prática do canto – toda vez que abro a boca, meu instinto é fechar (pra sempre).
Achei que era hora de encarar essa trava e me reservei aulas de canto mais uma vez. Fiz por dois meses e a vontade de sair estava imensa, me sentia muito mal.
“Qual é o motivo de ficar insistindo em uma ferida?”, eu me perguntava. Se hoje tenho outro trabalho, outra formação, e cantar não é de forma alguma uma obrigação. Um hobby não deveria ser prazeroso?
Foram dias me questionando se deveria ou não sair. Pendendo muito para o “sim”.
Até que tive um estalo.
Eu não queria sair porque não gostava das aulas, ou da minha professora. Eu queria sair porque me achava ruim, e queria ser boa.
Saindo, eu. voltaria para o meu silêncio. Insistindo, eu poderia ser boa.
Alguns caminhos precisam ser atravessados. Algumas feridas não são reabertas ao serem tocadas, elas são reabertas ao serem refeitas exatamente da mesma forma, mas em outro lugar.
A história é para o canto, mas serve para tudo, eu acho. Sou ruim em conta, então não vou estudar matemática. Jogo vôlei mal, então vou parar as aulas. Não consigo tocar o piano, então vou vender meu piano. Escrevo muito mal, então devo desistir de ser escritor.
Você vê como faz muito menos sentido essa lógica quando a questão é mais objetiva, palpável? Tanto o canto quanto a escrita são instrumentos de dentro, mas que funcionam da mesma forma – melhorando com a insistência, com a prática.
Então, seguimos.



